Drika Cardoso


Olá meus anjos, saudades de vocês, hoje vim lhes dar um grande presente com o texto maravilhoso do meu amigo Tony.

Espero e creio que gostem.

 

 

 

“Poeira”

A poeira que sobe do chão de terra vermelha esconde mais que lances, camisas ou jogadas de gol. Esconde medos, sonhos, decepções, tristezas...

Esconde sábados e domingos perdidos em troca de viagens, concentrações, promessas, discussões com a mãe, que insistia que o único filho deveria era logo arrumar um emprego, pois a despensa já fazia eco pela falta do arroz, feijão e mistura.

E a barba crescida já denunciava que o menino já se tornara homem, mas ainda dormia com a bola ao lado...

A poeira da Várzea esconde manhãs de domingo, que diferente da semana cinza, ainda sobrava algumas moedas, e que com elas o menino corria para a primeira banca de jornal para comprar figurinhas Panini. Com mesma rapidez, voltava-se para o rádio. Ouvia Milton Neves no Plantão de Domingo contar histórias de grandes craques, que também “nasceram da terra”. Como ele queria nascer.

E lá, com o álbum de fotos pequenas, e com olhos grandes, se via jogando para a Fiel inteira assistir. Num Palmeiras e Corinthians com o Pacaembu lotado, em final de Paulistão. Ôh, sonho.

A poeira encarde sorriso feliz de tio orgulhoso. Aquele que vendeu a CG 500 só para trazer o menino, que era só uma promessa, para tentar a sorte na capital. Esconde treinador de final de semana, que troca a gravata e o terno pelo “puta que o pariu, Vandeco”. É uma quase uma poesia, não?!? Drummond, talvez.

Mas a poeira que sobe na várzea esconde também muitas frustrações. Do menino inexperiente, sonhador, explorado por gente gananciosa que o prometeu a “10” do Flamengo, quando não tinha capacidade de nem ao menos dar um par de ingressos para o próximo jogo do campeonato do bairro.

Esconde filho rancoroso, que só perdoou o pai depois do ataque fulminante de coração. Senhor daqueles embriagados de sexta à noite, a quem a cachaça derrubou na esquina de casa, impedindo que o filho, craque de bola, fizesse a tão sonhada peneira no São Paulo. Naquela manhã de sábado, o menino ainda era criança. Nem ônibus sabia pegar...e não conseguiria ir sozinho até a Barra Funda.

A poeira da várzea, a mim, parece triste. Não é balé, mas tango. Cadente. Reflexivo. Sofrido. Parece com as tardes de domingo. Aquelas com sol avermelhado ao fundo, cujos raios dizem aos meninos, que já trabalham como homens, que o dia acabou, e que é hora de descansar um pouco, pois a segunda-feira já vem aí.

A vida sofrida, longe da manchete dos diários esportivos, deve continuar. Com ônibus cheio, patrão estúpido, salário baixo...

 

Tony Marlon

 

Fonte : www.colletiva.zip.net



Escrito por Driii às 19h18
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